sábado, 27 de fevereiro de 2010
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
Um ventre em movimento
Ao acordar, ela se lembra de que o dia não será apenas mais um simples dia. Antes de se arrastar pela casa, ainda na cama põe suas mãos docilmente ressecadas no fértil ventre e pensa: "Tão fértil que já estava pronto para comungar com o sagrado fruto da perpetuação de mais uma vida miserável. Não... miserável, não! Este fruto seria divino, sagrado, imaculado, amado e livre, livre!"
Ela se levanta e a única sensação de liberdade que contrista sua alma é saber que não morrerá depois de sangrar incessantemente pelos próximos quatro dias.
Ela levanta e sangra. Ela senta e sangra. Ela tosse e sangra. Ela chora e sangra. Ela ri desesperadamente e sangra!
Este ventre em movimentos cíclicos faz dela uma presa fácil. Porém, como uma quase-loba e com artimanhas que até o Diabo não acreditaria... Ou melhor, apreciaria. Ela escolhe o melhor jeans, o salto mais alto e o batom mais vermelho-sangue para apenas enfeitiçar os machos do campo em mais um dia de labuta.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
O primeiro dia de uma vida prazerosa
Em algum lugar estava escrito... (talvez Maktub? Enfim!) que os primeiros cem dias do ano seriam decisivos na vida de uma pessoa. Os primeiros cem dias que ela determinasse para ela mesma ou os primeiros cem dias depois do reveillon? "Vai sabê!!"
Ela acordou, correu como sempre. Enquanto coloca a água para ferver, escova os dentes, acorda o filho, volta; coloca o pó no coador, volta; enxagua a boca e guarda a escova de dente, volta; verifica a temperatura da água, volta; tenta acordar novamente o filho, volta; a água já está no ponto e joga vagarosamente a água no coador. O cheiro de café ocupa toda a casa, a sensação do nascer de mais um dia atarefado já a deixa exaurida. Volta e tenta pela última vez e definitivamente acordar o filho que apenas deseja nanar mais um pouquinho. Naquele instante, o pequeno coração de mãe compreendeu o choro dengoso, preguiçoso e sonolento do filho, ela se rendeu e deitou na cama com ele.
Os dois acordaram às 10h30. Ela tomou seu café requentado e ele o leite fresquinho. Ele teve a primeira falta do ano na escolinha, ela mais um dia que pode ver o mundo guiado pelos olhos de uma criança. Ele sai de casa para brincar na varanda e ele diz para ela: "A lua!" Ela ri. "Mamãe, quélo pegá a lua." Ela deixa o filho pegar a lua. Na verdade, ela também queria pegar a lua. Ao sair para varanda, vê as perninhas do filho se esticando, na pontinha dos pés, as mãozinhas para o alto na direção da lua parcialmente amostra. Ela também se estica toda. O filho brilha e sorri. "Mamãe... num quélo mais pegá a lua." Entretanto, ela ainda queria.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Sertralin
Ontem, foi o primeiro dia do Sertralin no estômago dela. Sim, foi no estômago o único sintoma que ela realmente conseguiu perceber após a ingestão do tal anti-depressivo. No começo, ela pensou que poderia ficar chapada, numa onda; depois pensou que fosse ficar feliz da vida, eufórica, quase em êxtase. Mas, pensou melhor e se sentiu a pior das fêmeas. A pior mulher, a pior mãe, a pior esposa, a pior amiga, a pior filha-de-Deus e também a pior puta. O maldito do comprimido não é Miojo, ela sabia disso. Enquanto o emocional fritava em mais um dia ensolarado, o corpo se arrastava pela casa com o estômago onipotente e onipresente. Almoço e jantar não estiveram presentes. Ao longo do dia, ela esperou e esperou ansiosamente o efeito da Sertralin: diminuir a angústia, o pânico e a depressão. Puta da vida, se viu presa numa condição humilhante e miserável: a humana. Naquele instante, desejou tornar-se uma crisálida. Mas... preferiu dormir sem escovar os dentes.
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